Guerra entre facções no Recôncavo Baiano tem tiroteio e toque de recolher

Compartilhe

As ruas das principais cidades do Recôncavo Baiano, antes conhecidas pela tranquilidade, foram palco de mais um episódio de disputa de facções criminosas no estado. Desta vez, intensos tiroteios foram registrados na região da Ponte da Pedra do Cavalo, que liga os municípios de São Félix e Cachoeira, na madrugada e início da manhã de terça-feira (11). O confronto foi tão acirrado que culminou em um comunicado da Prefeitura de Muritiba – município vizinho a São Félix – orientando a população a ficar em casa.

Em nota divulgada na tarde de terça, a Prefeitura de Muritiba anunciou a suspensão de serviços na cidade, incluindo as atividades das unidades de saúde, escola e repartições públicas. Disse que a situação estava sob controle e que a Polícia Militar seguia atuando para garantir a segurança, mas que, por precaução, todos, dentro do possível, deviam permanecer “em casa até que o cenário esteja totalmente normalizado”, pontuou.

A reportagem apurou que as trocas de tiros foram provocadas por uma invasão da facção do Comando Vermelho (CV), que tenta tomar o território de atuação do Bonde do Maluco (BDM). Áudios e vídeos compartilhados por moradores relataram a tensão na região da Ponte da Pedra do Cavalo.

No início da noite, outro tiroteio, desta vez entre policiais e criminosos, resultou na interceptação de seis suspeitos. Cinco foram presos e um ficou ferido durante o embate, que ocorreu em São Félix, durante reforço do patrulhamento ostensivo. Com os suspeitos, foram localizadas pistolas, carregadores, munições e porções de drogas.

Um morador de São Félix, que preferiu não se identificar, contou que o ocorrido mudou o clima do município. “A sensação de medo toma a cidade. Eu estou muito triste com o que está acontecendo com São Félix. Apesar do que está sendo noticiado, a situação é pior”, afirmou.

O escritor Edgard Abbehusen, que cresceu em Muritiba e vai frequentemente à cidade visitar a família, contou que o medo também se espalhou para além do ponto de confronto. “Eu liguei logo para minha mãe para saber como estavam as coisas e pedi que ela ficasse em casa. Veja: Muritiba é uma cidade pacata, de muita gente de bem, mas não está imune a essa onda de grupos criminosos, tráfico”, disse.

“A violência virou um mercado lucrativo para muita gente. E quem ‘paga o pato’ são as pessoas da periferia, as pessoas que não têm relação com esse grande negócio. A sensação, a grosso modo, é essa: perdemos a guerra. Em Muritiba, em São Félix, em Salvador, na Bahia e no Brasil. É um cansaço extremo”, desabafou.

O que explica a disputa de facções no Recôncavo?

Antes facilmente associado à vida pacata, tranquila e segura, típica de quase todo interior no passado, o Recôncavo Baiano tem registrado o crescimento progressivo da violência. No mês passado, uma operação contra grupos criminosos com atuação nas cidades de São Félix e Cachoeira cumpriu nove mandados de busca e apreensão. Dois acampamentos usados pelos suspeitos foram destruídos.

No local, foram apreendidos dez aparelhos celulares, balaclavas, roupas camufladas, capas de coletes balísticos, carregadores de armas e porções de maconha prontas para a venda, além de materiais abandonados pelos suspeitos durante a fuga.

A ação ocorreu duas semanas após a notícia de que criminosos teriam proibido a circulação de moradores entre cidades vizinhas, que são separadas pelo Rio Paraguaçu e ligadas pela histórica ponte Dom Pedro II. Um aviso de toque de recolher foi compartilhado por moradores, conforme mostrado em matéria do CORREIO.

Para Osmundo Pinho, cientista social e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), a escalada da violência na região se deve, sobretudo, à articulação do crime organizado e à política adotada pelo governo para combatê-lo. “O que acontece no Recôncavo é reflexo de uma grave crise nacional, que inclui variantes locais, mas, na verdade, como cada vez é mais evidente, o crime organizado e o tráfico de drogas também se globalizam e fazem parte da realidade global e transnacional”, aponta.

“A sensação de medo e desamparo só cresce, sensações que são muito maiores nas comunidades populares. O Estado falha em garantir o cumprimento da lei e falha também em oferecer possibilidades de inclusão e esperança para uma grande massa de brasileiros cansados de sofrer. É preciso que haja, em primeiro lugar, justiça para todos, controle do tráfico e porte de armas, investimentos educacionais maciços, penas proporcionais, cumpridas em condições dignas, como prescreve a lei, além de uma reforma das instituições do Estado”, defende.

Na perspectiva de Luiz Claudio Lourenço, cientista social e pesquisador do Laboratório de Estudos Sobre Crime e Sociedade da Universidade Federal da Bahia (Ufba), o crescimento populacional e comercial também são chamariz da interiorização da violência no estado.

“Nós vimos a Região Metropolitana de Salvador sendo foco de dinâmicas de violência muito aguerridas e depois a própria Ilha de Itaparica, que era um lugar muito tranquilo na década passada e passou a ter episódios de violência comuns. E o Recôncavo Baiano cada vez mais vem reportando casos de dinâmicas de violência que resultam em mortes e incrementam fortemente essas taxas de homicídios”, constatou, em entrevista anterior ao CORREIO.

Fonte//Correio 24h

WhatsApp do Café News: (77) 98115-6668.

Adicione nosso número e envie vídeo, foto ou apenas o seu relato. Sua sugestão será apurada por um repórter. Participe!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *